SERENA
Psiquiatria • Saúde Mental • Bem-Estar
PUBLICAÇÃO CIENTÍFICA
Esta revisão integrativa aborda transtornos ansiosos, depressão e risco de suicídio entre estudantes de medicina, discutindo fatores relacionados à formação acadêmica, como carga intensa de estudos, privação de sono, pressão psicológica, sofrimento emocional e dificuldades na busca por ajuda. O trabalho também destaca a importância da identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico e de estratégias institucionais de prevenção.
Aleff Henryck Martins Ferreira • Jully Anne Cavalcante Pereira
Revista FIMCA
·
2023
DOI:
10.37157/fimca.v10i1.716

Palavras-chave
Depressão, Ansiedade, Suicídio, Estudantes de medicina.
Nota de republicação: Este trabalho foi publicado originalmente na Revista FIMCA em 2023. O conteúdo científico foi preservado, com adaptações apenas de formatação para leitura na web. Dados, conclusões e referências refletem a publicação original.
INTRODUÇÃO
Transtorno ansioso é definido como uma condição formada por vários elementos complexos, sendo uma das mais importantes causas de incapacidade, associado a emoções como falta de vontade de fazer as atividades diárias, inutilidade, tristeza desproporcional, dentre outros. Os sintomas neurodegenerativos e cognitivos geralmente são muito comuns, desencadeando declínio de concentração e memória, gerando piora da qualidade do sono e emagrecimento severo (RIBEIRO et al., 2018).
É de suma importância saber que o surgimento da depressão está relacionado a fatores tanto ambientais quanto genéticos. A depressão pode ser considerada como um transtorno envolvendo vários genes, promovendo prejuízos a nível de sinalização celular encefálica apresentando alterações excitatórias e inibitórias em receptores glutamatérgicos e gabaérgicos (LENER et al., 2018).
É possível identificar que pacientes com diagnóstico de transtornos depressivos possuem níveis significativos inferiores de receptores GABA, glutamina, principalmente em regiões do córtex pré-frontal dorsolateral, dorsomedial e dorsoanterolateral. Tal fato, provavelmente está associado ao metabolismo oxidativo diminuído dos neurônios daqueles pacientes deprimidos, colaborando para o processo de inflamação e neurodegeneração (LENER et al., 2018).
Transtornos ansiosos têm grande repercussão na vida do indivíduo, sendo incapacitantes nos casos mais graves, podendo levar em alguns casos à morte, sendo de suma importância que sejam diagnosticados o mais precocemente possível, com o intuito de diminuir os danos.
O suicídio é considerado um problema de saúde pública pela Organização Mundial da Saúde (OMS) apud Da Costa, 2020, estando entre os dez principais motivos de morte na maioria dos países e na segunda ou terceira posição no público entre 15 e 34 anos de idade.
Seguindo essa linha de pensamento é possível chegar à conclusão de que a vida acadêmica representa uma fase de grandes expectativas, investimento e experiências para os jovens e adultos que visam ampliação de conhecimentos, sendo caracterizada pela formação técnica e profissional dos estudantes.
Porém, tal mudança de rotina proporciona fatores causadores de estresse, por medo de não alcançar o sucesso, os requisitos do mercado de trabalho, pressões familiares e até mesmo pressão dos professores. Tais fatores acabam prejudicando o estudante, desestabilizando especialmente a sua saúde emocional (DA COSTA et al., 2020).
Quando se analisa os acadêmicos de medicina e a rotina em que estão expostos, como altas horas de estudos, carga horária excessiva, poucas horas de sono e lazer, falta de atividade física e má alimentação, pode-se afirmar, segundo Costa, 2020, que tais indivíduos estão mais predispostos a desenvolver doenças mentais, porém também existem indivíduos que já apresentavam algum sinal de baixa saúde mental e que, com o início da graduação, foram se intensificando e aqueles que após o começo da faculdade desencadearam algum desses sinais clínicos (DA COSTA et al., 2020).
Esses fatores associados podem ter como resultado a manifestação de quadros patológicos psicossociais apresentados pelos acadêmicos de medicina, como crises de ansiedade, depressão, podendo levar ao suicídio em casos mais graves (DA COSTA et al., 2020).
O presente estudo teve como finalidade principal expor através da revisão de literatura, a incidência do transtorno de ansiedade nos estudantes de medicina, com o intuito de identificar os sintomas depressivos mais prevalentes e seus fatores de risco em acadêmicos de medicina.
FATORES DE RISCO PARA O DESENVOLVIMENTO DE TRANSTORNOS MENTAIS EM ESTUDANTES DE MEDICINA
A graduação em medicina em nossa atualidade é colocada como uma formação acadêmica em que o estudante enfrenta vários desafios tanto pessoais, quanto em relação às dificuldades do dia a dia.
Os acadêmicos de medicina mostram explicitamente taxas bem mais elevadas de depressão quando se comparam com outros acadêmicos ou com o restante da população. Uma revisão sistemática apontou 167 estudos em 43 países distintos chegando à conclusão de que a prevalência mundial da depressão entre os acadêmicos de medicina é de 27,2%, sendo que desses 11,1% dos estudantes possuem ideias suicidas (WATSON et al., 2020).
Inúmeras situações contribuem para que esses números aumentem, podendo estar relacionado à elevada carga horária à qual os acadêmicos de medicina estão sujeitos, grande volume de conteúdo ministrado, incerteza em relação à própria competência como também, incerteza relacionada ao mercado de trabalho e ao financeiro.
Todos esses pontos são vistos por sintomas que se apresentam por meio de dificuldades de relações sociais, tristeza, falta de vontade de fazer suas atividades diárias, disfunções cognitivas, déficits de memória, uso exagerado de álcool e drogas e sono desregulado (PARK; ZARATE JUNIOR, 2019).
Já as consequências são enormes, como seguimento destas, o estudante tem declínio da qualidade de vida, privação do sono, piora no quadro de ansiedade, piora da compreensão do conteúdo, uso exagerado de drogas e dificuldade para lidar com situações da vida acadêmica e particular (PEROTTA et al., 2021).
TRANSTORNOS ANSIOSOS EM ACADÊMICOS DE MEDICINA
A ansiedade é definida como um sentimento de vazio e apreensão que está ligada a sintomas que variam de um indivíduo para o outro. Esse sintoma é uma forma do corpo e da mente avisar para o ser humano que existem alterações acontecendo e que fogem da normalidade, o qual é um mecanismo natural e adaptativo de cada pessoa (OTTERO et al., 2022).
A ansiedade passa a ser considerada patológica quando ela interfere no cotidiano de um indivíduo, através de manifestações físicas como, por exemplo, taquicardia, sudorese, dispneia, irritabilidade e insônia. Visando o diagnóstico precoce deste transtorno, é explícita a importância da percepção do próprio indivíduo, quando houver o aparecimento de algum desses sintomas, para que ele possa buscar ajuda, evitando o agravamento dos sinais que o corpo e a mente manifestam (PAULO, 2021).
Em pleno século XXI a humanidade vive uma realidade que não descansa. Como base o estudo de Souza e Coelho, 2022, a realidade dos acadêmicos do curso de medicina não é diferente, mas sim mais agravada pelo fato de estarem inseridos em um cenário de alta carga de estudo, noites mal dormidas e grande sobrecarga de pressão psicológica e emocional.
Na maioria dos casos esses alunos enfrentam essa nova realidade longe da família, o que contribui para agravar os sintomas de ansiedade e depressão, que infelizmente muitas vezes se agravam podendo levar ao suicídio (SOUZA; COELHO, 2022).
Ottero, 2020 defende que a ansiedade é um sintoma comum no cotidiano das pessoas, mas quando essa apresentação clínica foge do controle e passa a ocupar grande parte do tempo do indivíduo ela passa a ser patológica, passando a ser definida como a persistência desse sintoma associada à fadiga, falta de ar, distúrbios do sono e sentimento de expectativa apreensiva, denominada transtorno de ansiedade generalizada (TAG), que geralmente tem a duração dessa sintomatologia por mais de seis meses.
Esse transtorno provoca repercussões sérias na vida da pessoa, podendo incapacitar o ser de realizar suas tarefas do dia a dia, afetando a vida da vítima, no trabalho, nos estudos e na vida conjugal (OTTERO et al., 2022).
TRANSTORNO DE ANSIEDADE GENERALIZADA (TAG) EM ACADÊMICOS DE MEDICINA
Barbosa, 2021 afirma que o transtorno de ansiedade generalizada é um dos problemas de saúde mental mais subdiagnosticados, o qual o paciente não busca ajuda e posterga o diagnóstico e tratamento adequados (BARBOSA, 2021).
O estudante de medicina nesse contexto se mostra mais vulnerável, tanto pela falta de percepção aos sinais que o corpo apresenta quanto em relação a não procurarem ajuda de um médico especializado, às vezes por vergonha de se expor ou até mesmo por falta de tempo.
É notório o aumento dessa patologia entre os acadêmicos de medicina, o que torna o assunto extremamente preocupante. A TAG afeta a qualidade de vida desses acadêmicos interferindo diretamente na formação acadêmica.
PREVENÇÃO AO SUICÍDIO
Diante ao aumento dos casos de suicídio cometidos por acadêmicos de medicina, o Conselho Federal de Psicologia do Brasil juntamente com o Conselho Federal de Medicina trouxe uma cartilha sobre o tema. Esta cartilha visa servir como um norteador de situações futuras no campo da psicologia sobre o tema e orientar na idealização de políticas públicas que visem prevenir e assistir a população mais vulnerável (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA et al., 2014).
A cartilha “Suicídio: Informando para Prevenir” foi produzida com base na ideia de que o suicídio pode ser prevenido, desde que os profissionais de saúde de todos os níveis de atenção estejam preparados para observar, identificar e reconhecer fatores que levam as pessoas a esse extremo (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA et al., 2014).
De uma maneira geral o suicídio é um problema de saúde pública, conforme o Conselho Federal de Psicologia et al., 2014, variando entre populações e grupos distintos, sendo eles os mais vulneráveis entre jovens, idosos e grupos socialmente isolados.
Ou seja, reafirma que a ideia do isolamento social pode interferir na idealização e planejamento do suicídio. Assim, tanto os acadêmicos de medicina como os médicos já formados estão suscetíveis ao isolamento social, tendo em vista a extensa carga horária de estudo e trabalho (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA et al., 2014).
METODOLOGIA
Este estudo trata de uma revisão integrativa tendo como objetivo apresentar literaturas a respeito da interferência do curso de medicina em casos de transtornos ansiosos de maneira sistemática, ordenada e abrangente.
O presente estudo utilizou fontes bibliográficas fazendo uma revisão integrativa de pesquisadores que versam sobre o aumento de casos de ansiedade, transtornos depressivos e suicídio em acadêmicos de medicina, tendo como intuito elencar estudos já existentes dispondo de informações mais completas e confiáveis sobre um tema específico.
Foram escolhidos para essa revisão integrativa artigos traduzidos na língua portuguesa, espanhola e inglesa, com publicação a partir do ano de 2016 a maio 2023 que tratam de transtornos depressivos e ansiosos em estudantes de medicina. Para a realização do rastreio foram utilizados Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) “estudantes de medicina e depressão” pareado com o operador booleano “OR”.
Foram utilizados artigos publicados com teor relevante, que após a análise criteriosa da leitura do título e dos resumos correspondessem aos aspectos relacionados com o tema pesquisado e o corte temporal da pesquisa.
Ao todo, foram encontrados 22 artigos científicos, sendo lidos títulos e resumos. Tendo como critério de inclusão, foram consideradas revisões integrativas, sistemáticas, estudos de coorte e estudos de prevalência.
Sendo excluídos: dissertações e teses, trabalhos de conclusão de curso, artigos com publicação anterior ao ano de 2016 e que não tratavam do teor proposto por essa revisão. Após a análise, 16 artigos não foram utilizados, 6 artigos foram considerados aptos para serem discutidos.
RESULTADOS
Os resultados obtidos através de pesquisas bibliográficas confirmam a similitude dos acadêmicos de medicina e transtornos ansiosos. Foram encontrados 22 artigos científicos, sendo lidos títulos e resumos, tendo como critérios de inclusão revisões integrativas, revisões sistemáticas, estudos de coorte e estudos de prevalência. Após uma leitura minuciosa, 03 artigos foram considerados aptos para serem discutidos.

Figura 1. Fluxograma orientado, elencando a seleção dos artigos embasados em critérios expostos, para a composição da presente revisão integrativa.
DISCUSSÃO
É de suma importância saber como os acadêmicos quando ingressam no ensino superior estão sujeitos a alterações que darão início a uma nova transição de vida. Seguindo essa linha de raciocínio, episódios de ansiedade, estresse emocional, exaustão de provas e diminuição de qualidade de sono podem habilitar um sofrimento psíquico.
Fora esses fatores, as expectativas e o sofrimento antecipado pela aprovação externa aumentam de maneira gritante os sinais que estão conectados às síndromes de depressão e ansiedade. Devido a esses fatores os acadêmicos de medicina estão sujeitos a apresentar sinais depressivos e ansiosos durante seu curso (ROCHA et al., 2019).
Seguindo esse raciocínio é possível chegar na seguinte linha de pensamento: o acadêmico de medicina tem sintomas relacionados a transtornos emocionais, dificuldades para dar seguimento ao curso, além de dificuldade de manter um estilo de vida mais saudável.
Sintomas mentais podem ter ligação com um impacto muito alto no desenvolvimento da carreira profissional do aluno, com diminuição de rendimento, alto risco de abandono do curso e altas taxas de suicídio. O alto índice de alunos depressivos nos alerta para início de acompanhamento psicológico na fase inicial do curso até a fase final, para que haja um essencial preparo desses alunos, com os desafios impostos pela área que escolheram trabalhar (MAO et al., 2019).
O estigma associado à saúde psicológica é um tema que tem que ser trabalhado na cultura do ensinamento médico. Durante o período acadêmico tem que ter à disposição dos alunos um suporte emocional, através de abordagens sobre comportamentos e sociedade terapêuticos. Essas abordagens são de suma importância na diminuição do impacto do estresse na graduação médica, sendo que com o passar dos anos tem uma diminuição no índice da depressão e os estudantes tendem a estar mais tranquilos com a vida acadêmica (PACHECO et al., 2017).
Mao, 2019, em estudo realizado através de uma revisão sistemática tendo como objetivo observar os sinais de depressão e ansiedade entre os acadêmicos de medicina e os fatores associados, chegou à seguinte conclusão: em 35.160 alunos de medicina, a prevalência da depressão foi de 32,74% e ansiedade foi de 27,22% (MAO et al., 2019).
Da Costa, 2020, em seu estudo realizado, o quantitativo epidemiológico transversal teve dados obtidos para estimar a prevalência dos casos de estresse, depressão e ansiedade entre alunos, concluindo que, de 279 alunos entrevistados, 66,3% possuíam ansiedade, 28% tinham sintomas depressivos, com 35,9% sintoma depressivo leve e 12,8% sintoma depressivo severo (DA COSTA et al., 2020).
Já Sacramento, 2021, realizou um estudo tendo como objetivo estimar a prevalência e os fatores associados a sinais e sintomas de ansiedade e depressão entre acadêmicos de medicina na capital do Nordeste, concluído que: de 1.339 alunos entrevistados, 30,8% apresentaram ansiedade e 36% apresentaram depressão (SACRAMENTO et al., 2021).
Com o intuito de mitigar os problemas ocasionados pelas extensas horas de estudos na graduação de medicina, algumas universidades vêm aderindo criar mecanismos de ajuda para os acadêmicos, proporcionando palestras educacionais, disponibilizando psicólogos, expondo os riscos de automutilação em casos de depressão. Essas medidas têm melhorado o estilo de vida dos acadêmicos (CAMPOS et al., 2020).
É importante priorizar o diagnóstico precoce nesses casos, identificando os momentos em que esse estudante se encontra mais vulnerável, propondo e executando medidas de prevenção à depressão, como ações para mostrar aos acadêmicos as altas taxas de transtornos psíquicos neste meio, e trazendo ferramentas para que possa melhorar a qualidade de vida trazendo autocontrole e boa autopercepção, para que saiba como e quando parar para pedir ajuda (CAMPOS et al., 2020).
CONCLUSÃO
Essa revisão integrativa conceitua que o transtorno de ansiedade vem acometendo crescentemente um público muito jovem, os quais sofrem influência extremamente direta do ambiente da vida acadêmica, principalmente no curso de medicina. O ambiente de universidade para os estudantes de medicina muitas vezes pode ser considerado tóxico e hostil devido à pressão associada ao curso, exigências e competitividade.
Também podemos citar que o acadêmico vive pressões e cobranças em todos os âmbitos de sua vida, são expectativas familiares, preocupações quanto ao financeiro, estéticas, sendo fundamental uma visão mais ampliada, englobando todo o contexto em que esse estudante está inserido.
O indivíduo quando é inserido no contexto acadêmico já vivencia uma carga grande de estresse. Com o acadêmico de medicina isso é potencializado, devido ao volume grande de horas que deve cumprir em sala e fora de sala de aula, estudando as matérias ministradas, os eventos extraclasse que fazem parte do currículo, toda a expectativa envolvida nessa carreira, isso gerando estresse, falta de sono adequado, dificuldade em encaixar em sua rotina hábitos saudáveis, uma boa alimentação, bons hábitos sociais. Isso torna esse estudante vulnerável aos transtornos ansiosos, à depressão e ao suicídio.
Logo é indiscutível a criação de medidas e ações por meio das instituições de ensino, que visem o combate a essa patologia. Juntamente com isso deve haver o comprometimento dos acadêmicos na priorização da sua própria saúde mental, respeitando seus limites e buscando ajuda médica de um profissional especializado quando necessário.
É importante saber que a prevenção do suicídio é possível, no entanto o problema não tem recebido a atenção necessária, sendo essencial que haja outros estudos sobre o tema a fim de formular intervenções e políticas de prevenção e tratamento específico para essa importante classe de estudantes e profissionais.
REFERÊNCIAS
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