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Vício em apostas: quando as bets se tornam um problema de saúde mental

Vício em apostas: quando as bets se tornam um problema de saúde mental

As apostas online podem deixar de ser entretenimento e causar perda de controle, dívidas, ansiedade e conflitos familiares. Conheça os sinais de alerta, as formas de tratamento e onde buscar ajuda.

Pessoa em momento de reflexão diante de um celular, representando a perda de controle com apostas online e a decisão de buscar ajuda.

As apostas esportivas e outros jogos online passaram a fazer parte do cotidiano de muitas pessoas. Estão no celular, nas transmissões de futebol, nas redes sociais e nas conversas entre amigos.

Apostar ocasionalmente não significa, por si só, ter um transtorno mental. O sinal de alerta aparece quando a pessoa começa a perder o controle sobre o tempo ou o dinheiro gasto, tenta parar sem conseguir e continua apostando apesar das consequências.

A Organização Mundial da Saúde estima que aproximadamente 1,2% da população adulta mundial apresente transtorno do jogo. Os prejuízos, porém, podem surgir antes que todos os critérios de um diagnóstico estejam presentes.

“A pergunta mais importante não é apenas quanto a pessoa aposta. Precisamos entender se ela ainda consegue escolher quando começar e parar, ou se a aposta já está comandando suas decisões.”

Dra. Jully Cavalcante

O que são as bets?

“Bet” é o termo popularmente usado para as plataformas de apostas, principalmente as apostas esportivas de quota fixa. Nelas, a pessoa arrisca dinheiro em um resultado incerto na expectativa de receber um valor maior.

Também fazem parte dos jogos de aposta:

  • cassinos e caça-níqueis online;

  • roletas;

  • crash games;

  • loterias;

  • bingo;

  • jogos de cartas valendo dinheiro;

  • apostas em competições virtuais ou eventos ao vivo.

As plataformas digitais acrescentam um elemento importante: elas podem ser acessadas a qualquer hora e em praticamente qualquer lugar.

Notificações, bônus, apostas em tempo real e recompensas imprevisíveis podem incentivar a repetição. O intervalo entre a decisão de apostar e a possibilidade de apostar novamente é muito curto.

Apostar é o mesmo que ter transtorno do jogo?

Não. O transtorno do jogo não é definido por uma aposta isolada ou apenas pelo valor perdido.

Segundo a Classificação Internacional de Doenças, três características são centrais:

  1. dificuldade persistente para controlar as apostas;

  2. prioridade crescente dada ao jogo, que começa a ocupar o lugar de outras atividades;

  3. continuidade das apostas apesar das consequências negativas.

O problema também pode existir em diferentes níveis. Uma pessoa pode ainda não preencher todos os critérios de um transtorno e, mesmo assim, já apresentar prejuízos financeiros, emocionais, familiares ou profissionais.

Por isso, não é necessário esperar uma dívida grave ou uma crise familiar para procurar orientação.

Quais são os sinais de alerta?

A relação com as apostas merece atenção quando aparecem comportamentos como:

  • gastar mais dinheiro ou permanecer jogando por mais tempo do que havia planejado;

  • fazer várias tentativas frustradas de diminuir ou parar;

  • pensar frequentemente em apostas, resultados e possibilidades de ganho;

  • aumentar progressivamente os valores apostados;

  • apostar para tentar recuperar uma perda anterior;

  • usar dinheiro destinado a contas, alimentação, estudos ou outras necessidades;

  • pedir empréstimos ou esconder dívidas;

  • mentir sobre quanto tempo ou dinheiro foi gasto;

  • ficar irritado, inquieto ou ansioso quando não consegue apostar;

  • perder sono acompanhando jogos ou resultados;

  • afastar-se de familiares e amigos;

  • apresentar queda de rendimento no trabalho ou nos estudos;

  • apostar como uma forma de fugir de tristeza, solidão, ansiedade ou frustração;

  • continuar apostando mesmo depois de conflitos, perdas e promessas de parar.

Um dos sinais mais comuns é a tentativa de “recuperar” o dinheiro perdido fazendo novas apostas. Essa estratégia costuma ampliar o prejuízo, porque uma nova aposta não corrige a anterior: ela apenas cria um novo risco.

“Muitas vezes, a pessoa diz que está apostando para ganhar dinheiro, mas, ao longo da conversa, percebe que também usa o jogo para aliviar ansiedade, frustração ou vazio. Quando a aposta vira uma forma de anestesiar emoções, o cuidado precisa olhar além das dívidas.”

Dra. Giovana Cavalcante

Por que pode ser tão difícil parar?

Os resultados das apostas são incertos. Às vezes ocorre um ganho, muitas vezes ocorre uma perda e, em outros momentos, a pessoa sente que “quase” acertou.

Essa imprevisibilidade ajuda a manter a expectativa de que o próximo resultado poderá ser diferente. Depois de perder, a pessoa pode acreditar que está perto de recuperar o dinheiro. Depois de ganhar, pode imaginar que encontrou uma estratégia que funcionará novamente.

Nesse ciclo, pequenas vitórias podem receber mais atenção do que o total acumulado de perdas.

Outros fatores podem aumentar a dificuldade de parar:

  • acesso permanente pelo celular;

  • possibilidade de apostar durante eventos ao vivo;

  • publicidade frequente;

  • sensação de urgência;

  • bônus e promoções;

  • vergonha de contar a alguém;

  • esperança de resolver dívidas com um grande ganho;

  • uso de álcool ou outras substâncias durante as apostas.

O problema não deve ser tratado como falta de caráter, irresponsabilidade ou simples ausência de força de vontade. O transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno de comportamento aditivo e pode exigir tratamento especializado.

Quem pode apresentar maior risco?

Qualquer pessoa pode desenvolver uma relação prejudicial com as apostas, mas alguns fatores aumentam a vulnerabilidade:

  • histórico de ansiedade, depressão ou outros transtornos mentais;

  • impulsividade elevada;

  • uso problemático de álcool ou outras drogas;

  • solidão e isolamento;

  • dificuldades financeiras;

  • separação, luto, desemprego ou outras situações estressantes;

  • exposição precoce a apostas;

  • convivência em ambientes nos quais apostar é apresentado como algo sem risco;

  • busca constante por recompensas imediatas.

Crianças e adolescentes não devem ter acesso a plataformas de apostas. Além de a participação de menores ser proibida, a exposição precoce pode normalizar o jogo como forma de diversão ou de obtenção de dinheiro.

Pais e responsáveis devem observar publicidade, influenciadores, jogos com elementos semelhantes a apostas e movimentações financeiras incomuns.

As consequências não são apenas financeiras

As dívidas costumam ser a parte mais visível, mas não são o único prejuízo.

O uso problemático de apostas pode estar relacionado a:

  • ansiedade;

  • humor deprimido;

  • culpa e vergonha;

  • alterações no sono;

  • irritabilidade;

  • isolamento;

  • conflitos conjugais e familiares;

  • queda de produtividade;

  • faltas no trabalho;

  • abandono de estudos;

  • empréstimos sucessivos;

  • venda de bens;

  • ruptura de relações de confiança.

A família também pode adoecer emocionalmente. É comum que pessoas próximas passem a monitorar contas, esconder dinheiro, pagar dívidas repetidamente ou viver em estado constante de alerta.

Como a família pode ajudar?

O primeiro passo é conversar em um momento de menor tensão. Acusações, humilhações e ameaças podem aumentar a vergonha e fazer com que a pessoa esconda ainda mais o comportamento.

Isso não significa ignorar dívidas ou aceitar novas apostas.

É possível acolher a pessoa e, ao mesmo tempo, estabelecer limites:

  • não oferecer dinheiro para novas apostas;

  • evitar pagar dívidas repetidamente sem um plano de tratamento;

  • proteger recursos destinados às necessidades da família;

  • organizar informações financeiras com transparência;

  • incentivar avaliação profissional;

  • participar do cuidado, quando houver concordância;

  • procurar apoio também para os familiares.

“Acolher não é fingir que nada aconteceu. É conseguir separar a pessoa do problema, preservar limites concretos e abrir espaço para que ela aceite ajuda sem ser reduzida aos erros que cometeu.”

Dra. Jully Cavalcante

Quando houver risco financeiro importante, pode ser necessário combinar o acompanhamento em saúde mental com orientação jurídica, financeira ou de assistência social.

Como é feito o tratamento?

O tratamento é definido de acordo com a gravidade das apostas, os prejuízos existentes e a presença de outras condições de saúde.

A avaliação pode incluir:

  • frequência e valores das apostas;

  • tentativas anteriores de parar;

  • dívidas e impactos familiares;

  • sintomas de ansiedade e depressão;

  • uso de álcool ou outras substâncias;

  • impulsividade;

  • risco de automutilação ou suicídio;

  • presença de uma rede de apoio.

A psicoterapia é uma das principais formas de tratamento. Abordagens como a terapia cognitivo-comportamental podem ajudar a identificar gatilhos, rever pensamentos relacionados ao jogo, enfrentar impulsos e criar estratégias para prevenção de recaídas.

Entrevista motivacional, grupos terapêuticos, apoio entre pares e participação da família também podem integrar o cuidado.

Não existe um único medicamento específico capaz de resolver o transtorno do jogo. Medicamentos podem ser indicados em situações selecionadas, por exemplo, para tratar condições associadas ou depois de avaliação especializada. Não devem ser utilizados por conta própria.

“A recuperação não depende de uma promessa feita em um momento de culpa. Ela se torna mais possível quando existe um plano: reduzir o acesso, reconhecer gatilhos, tratar o sofrimento emocional e construir outras formas de lidar com frustrações e recompensas.”

Dra. Giovana Cavalcante

Recaídas podem acontecer e não significam que o tratamento fracassou. Elas indicam que o plano precisa ser revisto, com identificação dos gatilhos e fortalecimento das medidas de proteção.

O que fazer quando a pessoa percebe que perdeu o controle?

Algumas medidas práticas podem ser tomadas desde o início:

  1. Conte a alguém de confiança o que está acontecendo.

  2. Interrompa depósitos e transferências para plataformas de apostas.

  3. Desative notificações, mensagens promocionais e aplicativos.

  4. Evite acompanhar conteúdos que funcionem como gatilho.

  5. Registre o valor real já gasto, sem tentar recuperá-lo com novas apostas.

  6. Proteja o dinheiro destinado às despesas essenciais.

  7. Procure atendimento em saúde mental.

  8. Considere utilizar a Plataforma Centralizada de Autoexclusão.

A autoexclusão do Governo Federal permite bloquear, de uma só vez, as contas mantidas em plataformas de apostas autorizadas e impedir novos cadastros com o mesmo CPF durante o período escolhido. A medida também interrompe publicidade direcionada dessas empresas.

A ferramenta é uma proteção importante, mas não substitui o tratamento quando já existe perda de controle ou sofrimento emocional.

Onde procurar ajuda?

O atendimento pode começar por:

  • Unidade Básica de Saúde;

  • Centro de Atenção Psicossocial;

  • profissional de saúde mental;

  • serviços de urgência, quando houver risco imediato.

O Meu SUS Digital oferece um autoteste sobre problemas relacionados a apostas. Dependendo do resultado, a pessoa pode ser encaminhada para teleatendimento especializado. Familiares e integrantes da rede de apoio também podem buscar orientação.

Atenção a pensamentos de morte ou suicídio

O transtorno do jogo pode estar associado a intenso desespero, principalmente diante de dívidas, conflitos e medo de revelar as perdas.

Se houver pensamentos de morte, risco de suicídio ou perigo imediato:

  • não deixe a pessoa sozinha;

  • procure uma UPA, pronto-socorro ou hospital;

  • ligue para o SAMU pelo número 192;

  • ligue gratuitamente para o CVV pelo número 188.

A dívida pode ser reorganizada. A vida precisa ser protegida primeiro.

Perguntas frequentes

Toda pessoa que aposta vai desenvolver dependência?

Não. Entretanto, qualquer pessoa pode sofrer prejuízos, e algumas apresentam maior vulnerabilidade. O mais importante é observar controle, frequência, motivação e consequências.

Apostar novamente ajuda a recuperar o dinheiro perdido?

Não há garantia de recuperação. Tentar compensar perdas com novas apostas é um sinal de alerta e pode aumentar rapidamente o prejuízo.

Uma plataforma autorizada é livre de riscos?

Não. A autorização indica que a empresa está submetida às regras brasileiras, mas não elimina os riscos financeiros e de saúde mental associados às apostas.

É possível tratar o transtorno do jogo?

Sim. O tratamento pode envolver psicoterapia, redução do acesso às apostas, participação da família, suporte entre pares e cuidado de outros transtornos associados. Quanto mais cedo a pessoa busca ajuda, menores podem ser os prejuízos acumulados.

Referências

  1. Organização Mundial da Saúde — Gambling. Informações sobre transtorno do jogo, sinais clínicos e impactos à saúde.

  2. Ministério da Saúde — Não Aposte Sua Saúde. Fatores de risco, sinais de alerta e acesso à Rede de Atenção Psicossocial.

  3. Ministério da Saúde — Linha de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas. Orientações brasileiras para prevenção, avaliação e cuidado.

  4. Ministério da Saúde — Campanha Nacional de Prevenção aos Danos das Apostas Online. Informações sobre autoteste e teleatendimento pelo SUS.

  5. Ministério da Fazenda — Plataforma Centralizada de Autoexclusão. Serviço oficial de bloqueio do acesso às plataformas autorizadas.

  6. NICE — Gambling-related harms: identification, assessment and management. Recomendações sobre avaliação, psicoterapia, apoio familiar e tratamento.

  7. Ministério da Saúde — Prevenção do suicídio. Orientações sobre CAPS, UBS, urgência, SAMU 192 e CVV 188.

Aviso editorial:
Este conteúdo tem finalidade informativa e não substitui avaliação médica ou psicológica individual.

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Dra. Jully Anne Cavalcante Pereira

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